O médico infectologista Nélio Artiles construiu uma trajetória diretamente ligada à história do enfrentamento das doenças infecciosas em Campos. Chegado ao município na década de 1990, ele foi o primeiro infectologista a atuar na cidade, em um período marcado pelo avanço da epidemia de AIDS, ainda sem tratamento eficaz e cercada por medo, estigmas e desinformação.
“Quando cheguei a Campos, não havia infectologista. E eu cheguei justamente junto com um grande flagelo da humanidade, que foi a AIDS. Era um momento de muito pânico, as pessoas tinham medo de atender esses pacientes”, relembra o médico.
Naquele contexto, os atendimentos a pacientes com doenças infecciosas eram fragmentados, distribuídos em diferentes unidades hospitalares. Segundo Nélio, faltava um espaço estruturado que concentrasse esses casos. “Pacientes com meningite, leptospirose e outras doenças ficavam espalhados em vários hospitais. Foi quando tive a ideia de concentrar tudo em um único lugar”, explica.
A partir dessa iniciativa, teve início uma longa articulação para a criação do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP), que passou a funcionar no Hospital Ferreira Machado (HFM). O processo envolveu desafios institucionais e políticos. “Não foi uma luta fácil. Estive várias vezes em Brasília e na Secretaria Estadual de Saúde”, conta.
Com o tempo, o serviço foi se estruturando de forma multiprofissional, reunindo infectologia, clínica médica, enfermagem, psicologia e serviço social. “As pessoas foram se agregando naturalmente. Eu comecei a treinar as equipes e fomos construindo um serviço sólido, com um elo muito forte entre os profissionais”, destaca.
Os primeiros anos da DIP coincidiram com um período de grandes perdas, sobretudo em função da AIDS, que ainda não tinha tratamento eficaz. “Foi um tempo de muito sofrimento, tanto para as famílias quanto para nós. Mas, isso nos uniu ainda mais e fortaleceu o serviço”, afirma. Além do atendimento hospitalar, a equipe também atuava na prevenção, com palestras em escolas e ações educativas junto à população.
Com o passar dos anos, a DIP do HFM se consolidou como referência regional, atendendo pacientes de Campos, do Norte e Noroeste Fluminense e até de outras regiões do estado. O serviço também se tornou um espaço de formação médica. Em parceria com a Faculdade de Medicina de Campos e o Hospital Escola Álvaro Alvim, chegou a oferecer residência em infectologia. “Hoje, todos os infectologistas que atuam em Campos são meus ex-alunos. Isso me dá um orgulho enorme”, ressalta Nélio.
Agora, em fase de aposentadoria, o médico avalia sua trajetória com um sentimento de gratidão. “É um misto de alegria e tristeza. Alegria por ter criado um serviço que ajudou tanta gente, especialmente pessoas sem condições financeiras. A DIP trouxe alívio, tratamento e cura para muitas doenças”, afirma.
Mesmo deixando a assistência direta, Nélio seguirá próximo do serviço por meio da docência. Professor da Faculdade de Medicina de Campos, ele continuará acompanhando a formação de novos profissionais. “A DIP é como um filho. A gente não se afasta completamente. Vou continuar por perto, ensinando e contribuindo”, diz.
O Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias segue ativo no Hospital Ferreira Machado, mantendo o compromisso com um atendimento humanizado, científico e voltado à saúde pública. “O sentimento que fica é gratidão. A Deus, aos profissionais e à população de Campos, que sempre confiou no nosso trabalho”, conclui o médico.