Colocar pesquisas geográficas a serviço de demandas concretas de Campos. Essa é a proposta dos projetos “Diagnóstico do meio como etapa preliminar para a construção de um plano municipal de redução de riscos em Campos dos Goytacazes” e “Avaliação dos impactos ambientais gerados pela erosão costeira em Farol de São Tomé”, apoiados pelo programa Mais Ciência da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct). Ambas as pesquisas são coordenadas por Eduardo Manuel Rosa Bulhões, professor do Departamento de Geografia do campus Campos da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Com “Diagnóstico do meio como etapa preliminar para a construção de um plano municipal de redução de riscos em Campos dos Goytacazes”, Eduardo pretende reunir informações sobre meio físico, vegetação, solos, hidrografia, uso da terra, demografia e infraestrutura. O projeto, que conta com Lara Nunes Barroso como bolsista, avança na construção de uma base capaz de subsidiar o plano municipal de redução de riscos.
O pesquisador destaca que a proposta surgiu de duas frentes centrais. A primeira, segundo ele, é formar estudantes e futuros geógrafos por meio de experiências técnicas aplicadas, com impacto social direto. A segunda é colaborar com a gestão pública, em especial com a Defesa Civil Municipal, para que o conhecimento produzido na universidade ajude a enfrentar problemas reais do território. “Todos os projetos que já coordenei junto ao Programa Mais Ciência surgiram dessas duas necessidades realmente importantes para mim”, afirmou Eduardo, ao defender a aproximação entre ensino, pesquisa e serviço público.
O levantamento indica que grande parte do território de Campos já sofreu alterações pela ação humana e apresenta fragilidades ambientais. De acordo com o relatório, as áreas de pastagem ocupam 45,73% do município, enquanto a zona urbana representa 3,20%. Esse cenário concentra riscos principalmente em regiões como o Delta do Paraíba do Sul, que possui solos com baixa capacidade de absorção de água e maior suscetibilidade a alagamentos. Além disso, a perda de 85,61% da vegetação original e a presença de formações fluviais recentes aumentam a pressão sobre áreas mais sensíveis e reduzem a capacidade natural do ambiente de lidar com o excesso de água.
Eduardo explica que o objetivo, nesta etapa, é transformar esses dados em uma base útil para a tomada de decisão pública. A expectativa é reunir informações sobre os meios físico, biótico e socioeconômico, permitindo uma leitura espacial das áreas de risco e a integração desses dados aos sistemas do Centro de Monitoramento da Defesa Civil Municipal. “Esperamos entregar uma base de dados consistente, capaz de apoiar o município no planejamento de prevenção”, disse o coordenador ao comentar os resultados esperados.
A segunda pesquisa, que conta com a bolsista Maria Luiza Ribeiro de Abreu, se volta para outro ponto sensível do território campista: o Farol de São Thomé. O estudo avalia os impactos ambientais, sociais e econômicos provocados pela erosão costeira na orla marítima, com uso de parâmetros de qualidade ambiental e indicadores do Projeto Orla. De acordo com o relatório, o trecho mais afetado se estende por cerca de 9 quilômetros, entre a Barra do Furado e as proximidades da rua Maria Teresa, com avanço de processos erosivos associados ao déficit sedimentar e à ação de ressacas.
Os dados iniciais também ajudam a entender o nível de vulnerabilidade na faixa litorânea. Nesta fase, a pesquisa identificou 164 construções localizadas diretamente na área afetada pela erosão, totalizando cerca de 80,4 mil metros quadrados de área construída. A maioria é de residências, mas também há comércios, postos de saúde e campings. Parte desses imóveis é utilizada apenas no período de veraneio, o que evidencia que a erosão não impacta apenas o meio ambiente, mas também a forma como a praia é ocupada e utilizada pela população.
Eduardo observa que, nesse projeto, a meta não é apenas identificar o problema, mas qualificá-lo de forma técnica para fortalecer a resposta pública. Ele afirma que o resultado esperado é permitir que o município justifique e capte, com base sólida, os investimentos necessários em prevenção e proteção costeira.
Para o professor, integrar o Mais Ciência é também reconhecer o valor estratégico da produção universitária. “O Mais Ciência é um programa que o município deve se orgulhar”, disse Eduardo, ao destacar que a iniciativa conecta universidades públicas e privadas, estimula inovação e devolve conhecimento aplicado à população. Com os dois projetos em andamento e dentro do cronograma, a previsão é que resultados mais consolidados sejam apresentados no Congresso Fluminense de Iniciação Científica, no fim de maio, reunindo ciência, formação acadêmica e interesse público em uma mesma agenda.