O Centro de Memória de Práticas Corporais (Cemeprac), desenvolvido na Escola Municipal Maria Antônia Pessanha Trindade, em Quilombo, Dores de Macabu, vem reunindo, organizando e preservando lembranças da comunidade quilombola de Lagoa Feia em formato digital. Em 2025, o projeto foi contemplado pelo Mais Ciência na Escola, programa de fomento da Secretaria Municipal de Educação, Ciência e Tecnologia (Seduct), com quatro bolsas, sendo três de iniciação científica júnior e uma de apoio científico e tecnológico, o que permitiu ampliar o trabalho de registro de entrevistas, imagens e relatos ligados à cultura local.
À frente da iniciativa está Marcilon Bezerra da Silva, professor de Educação Física da unidade escolar e pesquisador que já vinha desenvolvendo estudos sobre cultura afro-brasileira e práticas corporais desde 2024. No Cemeprac, ele conduz uma proposta construída a partir da escuta da comunidade e do entendimento de que danças, brincadeiras, rituais e modos de viver guardam parte da história do território. Para o coordenador, a força do projeto está em “transformar uma memória antes restrita à oralidade em um patrimônio organizado, acessível e reconhecido pela escola e pelos moradores”.
Ao longo do percurso, os estudantes Antony Victor Carvalho Gomes, Matheus Lourenço da Silva e Miguel Souza Evangelista atuaram como bolsistas e pesquisadores, participando de entrevistas com moradores antigos, registros audiovisuais e produção de materiais de apoio. O trabalho também resultou em cadernos de formação, mapa de identidade e registros reflexivos, que ajudaram a relacionar corpo, território e ancestralidade. Segundo Marcilon, a proposta fez com que saberes antes transmitidos apenas pela fala passassem a compor um acervo digital capaz de preservar histórias, práticas corporais e experiências de vida da comunidade quilombola.
Um dos momentos mais marcantes do projeto foi o Festival Raízes Corporais do Quilombo, realizado na Escola Municipal Maria Antônia Pessanha Trindade em novembro de 2025. A programação reuniu mesa redonda, oficinas formativas, café literário e apresentações ligadas ao território, além do lançamento do perfil do Cemeprac no Instagram, criado para ampliar o acesso público ao acervo.
O projeto também passou a circular em eventos científicos e institucionais. Na edição de 2025 da Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro (FECTI), realizada em dezembro, o projeto de pesquisa construída no quilombo foi premiado na categoria de divulgação científica, reconhecimento que destacou a forma como a iniciativa comunica conhecimento a partir da escola pública e do território. Antes mesmo de chegar à FECTI, o Cemeprac foi apresentado na XII Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e depois selecionado para a II Mostra de Ciência e Tecnologia, ocasião em que ficou entre os projetos contemplados para a feira estadual.
Entre os resultados mais expressivos, o trabalho abriu caminho para novas oportunidades formativas aos estudantes. Miguel Souza Evangelista recebeu uma bolsa de Iniciação Científica Júnior para dar continuidade à pesquisa, enquanto o conjunto do projeto passou a ser referência interna na escola, despertando o interesse de outros professores por temas ligados à memória, cultura quilombola e práticas corporais.
Para Marcilon Bezerra da Silva, o alcance do Cemeprac mostra que ciência, cultura e educação podem caminhar juntas quando a escola reconhece o território como fonte legítima de conhecimento. Ele considera que o projeto se consolidou como uma iniciativa que articula memória e pertencimento e que permite à comunidade guardar, rever e compartilhar sua própria história. “A proposta do Cemeprac é tornar acessível e permanente um patrimônio cultural que vinha sendo conservado apenas pela memória oral”, afirmou o coordenador, ao destacar que o apoio da Seduct e do Mais Ciência na Escola foi decisivo para transformar a vivência da comunidade em acervo, pesquisa e formação.